Tema: Decisão do futebol em janeiro de 1979
André Caldas
Quem acompanhou garante que foi inesquecível. Foi uma jornada esportiva digna de entrar para a história. E entrou, realmente.
O futebol no Brasil, nos anos 70, vivia uma fase romântica, com os craques desfilando suas cabeleiras pelos campos afora. No futebol de Itanhaém atuavam jogadores que poderiam muito bem vestir a camisa de qualquer equipe profissional. E muitos até foram, casos de Pedro Paulo (jogou nos juniores do Botafogo de Ribeirão Preto, ao lado de Sócrates), Esquerdinha (jogou no Santos e na Portuguesa Santista), Toninho Boá (craque do Juventus e Cruzeiro), além do ponta-esquerda Totó, irmão da D. Carmem, da família Rodrigues, que jogou na Espanha.
Os mais antigos contam que o quadrangular envolvendo o Vila Nova, Palmeirinhas, Anchieta e Ivoty foi marcante em vários aspectos. A começar pela paixão que o futebol despertava nas comunidades. Na época, os times tinham fiéis e apaixonadas torcidas. Os diretores se esforçavam para promover grandes festivais de futebol nos aniversários dos clubes. Nestes festivais, a Prova de Honra era a partida mais aguardada, pois reunia o 1º quadro do time da casa contra algum visitante ilustre. Os clubes mais temidos de Santos, São Vicente e São Paulo chegavam com quatro ou cinco ônibus de torcedores. Era a hora máxima da grande festa, que geralmente começava no sábado pela manhã, com as categorias menores: fraldinha, mirim, infantil e juvenil. No domingo pela manhã, jogavam os veteranos e convidados. Então, às 16 horas a ansiedade da torcida aumentava. Os fogueteiros preparavam os pavios. Lá vinha o esquadrão, o escrete magnífico, os ídolos da multidão. Os fogos explodiam no espaço.
E quando a bola rolava, era um verdadeiro espetáculo de futebol.
Nos dias atuais, o futebol amador não demonstra a mesma grandeza em termos de ídolos. São poucos jogadores admiráveis, daqueles que nos levam para um campo da várzea especialmente para vê-los em ação. Para ser de boa qualidade técnica, as equpes buscam atletas em Peruíbe, Mongaguá e Praia Grande. E o pior de tudo isso: os clubes se fecharam. Fizeram muralhas ao redor do campo, o que os afastou definitivamente da torcida.
Voltando a janeiro de 1979, o quadrangular foi realizado para definir o campeão de 78. O Vila Nova, campeão de 77, queria o bicampeonato. E tinha time pra isso.
O clube absorveu o carinho de toda a comunidade do Belas Artes. Torcedores do Jacnay, do antigo Comercial do Iemanjá, do Corumbá, América e Fluvila fizeram parte da caravana que percorreu a pé o trajeto entre o Belas Artes e o Campão (pela linha do trem) explodindo fogos e tremulando as bandeiras.
A campanha do Vila Nova foi muito boa: dez jogos, 12 gols pró, 3 contra, 4 vitórias e 5 empates. Perdeu apenas uma vez. Foi para o Anchieta por 3 x 2, na única partida em que o goleiro Luizinho tomou gol. E foram logo dois do atacante Luciano Moura dos Santos (futuro vereador entre 1989 e 1992), que acabou sendo o artilheiro daquele ano.
Personagens
José Duarte de Castro, o popular Zé Macaco, filho do empresário Jayme de Castro, construtor do edifício Castro em 1970, era lateral-esquerdo do Palmeirinhas. “Foi uma semifinal inesquecível. Mexeu com os jogadores, com a torcida. Parou a cidade. Todos queriam ver a disputa do quadrangular”, narra.
Benedito Gonzaga Dias, o Pezão, até hoje fala daquela decisão. “O Vila Nova era temido porque tinha a base do antigo time da Guarda Civil, que era quase imbatível. Aquela semifinal ficou para a história”.
Hoje técnico aposentado, o ex-goleiro do Vila Nova, Luizinho Ricardo, lembra de um episódio marcante daquela decisão. “O time do Anchieta se concentrou antes da partida contra o Vila Nova. Fizeram como os times profissionais. Só que não teve jeito. Perderam pra gente por 2 x 0”.
O Vila Nova foi bicampeão e o Belas Artes parou em festa. O campo do time era ainda ali perto da linha do trem, em frente à igrejinha do bairro. A festa varou a madrugada.

















