segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Crônica do André Caldas


Coisas de dezembro

Porque tem coisas que só acontecem com a gente nesta época

Da forma como anunciam os cartões natalinos, este é um período de reflexão, de olharmos mais para o interior de nós mesmos e procurarmos melhorar o mundo.

E vivermos situações inusitadas também.

Porque existem coisas que só acontecem mesmo em dezembro, quando somos tomados pela descontração, relaxamos na disciplina, dormimos tarde e acordamos tarde também.

É o mês onde participamos de tudo que é festa de confraternização. Na minha profissão, recebo convites para três eventos ao mesmo tempo. Mas não temos estômago suficiente pra tanta picanha, farofa e pão com vinagrete. Nem temos tantos amigos ocultos assim.

Participamos também das peladas de confraternização, que reúnem corintianos versus santistas, amigos desse versus amigos daquele e assim por diante. Ocorre que participei no último domingo de uma pelada na praia do São Fernando reunindo solteiros versus casados. É tradição. Existe há mais de dez anos. As equipes nunca mudaram muito. Mas desta vez o time dos casados cresceu, tal a quantidade de amigos que se casaram de janeiro pra cá. Já desconfiava disso, porque passei o ano recebendo convites de casamento.  

Das coisas de dezembro que mais gostamos destacam-se as festas familiares e a chegada dos parentes. Esta semana conheci dois primos do interior que, juro, nem sabia da existência.

Mas no fim do ano tem coisa mais divertida do que as crianças correndo pela casa? Do pequenino sobrinho perguntando se Papai Noel vai descer pela chaminé da lareira ou surgir da churrasqueira dos fundos? Dos carteiros e coletores de lixo tão gentis nesta época (claro, tem a caixinha, o vinho, o panetone)? Do corre-corre esbaforido das nossas tias na cozinha, conferindo cada detalhe da ceia? E os telefonemas, SMS, e-mails e dos cartões de Natal que muitos acham antiquados, mas se desmancham todo quando o carteiro chega?

Bom, tem a depressão de fim de ano. E neste quesito, amigo e amiga, não se preocupe. Um pouco de tristeza e contrição ajuda a equilibrar nossas emoções. Ninguém é de ferro. Claro, vamos nos lembrar dos amados que se foram, com tristeza, porque não estarão mais conosco nesses momentos de grande alegria. Por ser a época mais esperada do ano, para a maioria das pessoas, o período natalino traz um misto de ansiedade e depressão. É uma época em que as emoções se alteram, para cima ou para baixo, mexendo de fato com o humor de cada um de nós. Tem a depressão pelas lembranças tristes e aquelas provocadas pela ansiedade. E isso afeta mais as donas de casa, que não querem se equivocar em nenhum detalhe da festa. A adrenalina sempre a mil por hora. Seja qual for o motivo o coração bate acelerado, falta o ar e a barriga gela. Esses são alguns dos efeitos da ansiedade que, em dosadas proporções, é até benéfica, afirmam os entendidos. 

Só que, das melhores coisas para se fazer neste final de ano, brindar com amigos não tem preço. E sem pressa, nem celular tocando. E nossa turma tem preferência pelos botecos dos bairros. Afinal, somos originários da periferia itanhaense, freqüentadores de bares com mesa de sinuca, bêbados cochilando no balcão, pôsteres da seleção de 82 na parede e tira-gostos de origem contestada (alguém já comeu um ovo cor-de-rosa num botequim?). Vai daí que nesta época do ano seguimos uma via sacra conhecida: bar do Luis (Loty), bar do Marquinhos (trevo do Suarão), padaria do Armandinho (Savoy), padaria do Bedeu (Ivoty), bar do Levi (Cesp), bar do Nei (Belas Artes) e bar do Russo (Jardim Regina) e outros mais, sem esquecer o Porbem, no Centro, onde encontramos o melhor torresmo do Brasil. Em cada boteco ganhamos uma folhinha, um calendário, abraços e por aí a coisa vai.

Como estamos no final do ano, reencontramos gente que há décadas desconhecíamos o paradeiro. E em alguns casos, não reconhecemos de imediato, porque todo mundo engorda, não tem jeito. A careca, a bochecha e a saliência abdominal escondem o rapaz esbelto e atraente de vinte anos atrás.  

Resumindo a missa, fim de ano pra quem mora em Itanhaém exige também muita paciência com os turistas. A turma que desce a serra ajuda na economia local, apesar dos problemas que trazem a tiracolo. Mas é nossa obrigação recebê-los e orientá-los porque estão sempre perdidos. Se bem que não tiro a razão do meu jardineiro, que fulo da vida, deu uma orientação errada depois de quase ter sido atropelado por um grupo de rapazes num carrão envenenado que parou ali na frente e pediu informações sobre como chegar à Praia do Sonho. “Ih, tá longe. Pega a rodovia lá na frente, vai em direção a Peruíbe, porque a Praia do Sonho fica depois da Praia do Gaivota”. 

Pega leve, seu Ari! 

Dezembro de 2007
(texto publicado no livro Crônicas de um Itanhaense, à venda nas bancas de Itanhaém)

* * * 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Do livro "Crônicas de um Itanhaense"


Promessas para o ano vindouro
 
Como toda festa de confraternização, tem muito veneno escorrendo pelo canto da boca

Sexta-feira passada foi o dia do encontro anual de uma velha rapaziada ligada à comunicação aqui da região. Velhos e novos profissionais do nosso ramo. Alguns chegando agora, outros já pensando em aposentadoria. Desta vez, não éramos muitos. Mas enchemos quatro mesas. Um papo mais que agradável, porque a regra ali é falar de tudo e, obrigatoriamente, até da vida de quem faltou ao encontro. Nada de amigo oculto também. Isso é coisa de capitalista, consumista, resmungou lá da ponta o velho Neirão. 

Toda turma de amigos reserva um canto para os que não perdoam nada nem a ninguém. Cospem veneno. De tudo fazem chacota. Acho que entrei nessa fatia, sexta passada. E o veneno foi destilado em cima dos pauteiros do telejornalismo regional. Porque, no meio da conversa, sugeri que registrássemos em guardanapos as pautas que os telejornais regionais obrigatoriamente levariam ao ar em 2011. Mas foi assim: antes, deixamos bem claro nosso respeito imenso à turma televisiva aqui da Baixada. É que, querendo ou não, é batata! Pode apostar: as pautas são todas iguais, ano após ano.

Então registramos em vários guardanapos o que os repórteres mostrarão na TV regional no próximo ano. Começando por janeiro em que aparece sempre um jornalista ao vivo de uma praia do litoral anunciando calor recorde, engarrafamento na Pedro Taques, temporais na Baixada, enchentes, falta d´água. Daí entra fevereiro e a pauta obrigatória é o Carnaval. E tem também aquela repórter que vai entrar ao vivo d´uma papelaria pra mostrar que os pais precisam pesquisar os preços dos materiais escolares.  

E por aí a conversa discorreu até chegarmos a dezembro, entre risos, veneno escorrendo pelo canto da boca. O relógio acusava uma da manhã e os celulares começaram a se manifestar. Eram as esposas intimando a que horas terminaria a “festinha”, assim, com ironia mesmo. Praticamente só tinha homem na reunião. Tinha a Soraia também. Só que ela recebeu um telefonema de sua esposa, como ela mesma entregou. Então éramos um clube do Bolinha ali naquelas quatro mesas.

Ainda deu tempo de fazer algumas votações para eleger o “quem é quem do Brasil” do ano que estava acabando. O cara do ano foi o palhaço Tiririca (Neymar perdeu por um voto); a musa de 2010 foi a atriz Aline Moraes; o mico do ano foi cometido pelo Faustão que, ao vivo, trocou bullying (atos de violência física ou psicológica) por bulimia. Teve também a Suzana, colega nossa, cujo casamento foi em maio. Ela ganhou o “Troféu Acabou com o Clima” de 2010. A Suzana avisou o Ronaldo, na primeira noite da lua-de-mel, que pegara uma disenteria daquelas. O bufê servira um marisco bem passado. Passado dos dias. 

Como toda festa de confraternização, terminamos prometendo cada um levar mais um profissional de imprensa no encontro do próximo ano. Entre as promessas repetidas, das mais divertidas foi a do Rubão, cinegrafista, que prometera não se separar de sua esposa em 2011. Já está no oitavo casamento. 

No final, ficaram comigo os guardanapos com as apostas das tais pautas televisivas. Estarão bem guardadas. Até dezembro de 2011, quando vamos nos encontrar e rir bastante de mais um ano. Inclusive o comunista Neirão. Saúde, velho!

André Caldas
Dezembro de 2010
*texto extraído do livro "Crônicas de um Itanhaense", à venda nas bancas de itanhaém, já em segunda edição

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Lembranças da infância, no Ieda (crônica do André Caldas)

Boa pontaria (ou não, depende)

Ele era o pior lateral-direito que tinha no time da nossa rua

As peladas de fim de semana fazem parte dos costumes de qualquer bairro que tenha áreas livres. E tinha áreas de sobra lá no Ieda, nos idos de 77 a 80. Tinha uma praça, que continua do mesmo jeito até hoje, passados mais de 30 anos, que era o ponto de encontro da comunidade nos sábados à tarde e domingos de manhã (quando se conseguia fugir da escola dominical).

Na periferia, em qualquer cidade, os campinhos - de terra, grama ou mesmo nas ruas pavimentadas – tornam-se ponto de encontro preferido dos finais de tarde. É ali onde toda mãe sabe que vai encontrar o filho. Mesmo que o rebento não goste de futebol. Porque aquele campinho parecia um playground. Como o espaço era extenso, alguns garotos jogavam taco, outros jogavam triângulo com bolinhas de gude, empinavam pipas e outros (o meninos acima de 12 anos) sentavam nos troncos de eucaliptos apenas para flertar com as meninas. Mas só olhavam. Era só “pressão”, um termo popular na época para designar os metidos a besta.  

Também na periferia, a população infantil é grande. Por isso o campinho parecia um formigueiro. E por isso também era imensa a quantidade de amigos que todo mundo tinha.

A turminha do futebol era uma grande concentração de moleques. Passava dos trinta. Sempre ficava um time do lado de fora, esperando um deles perder para dar a vez a outro.

E para montar os times era um curioso critério: formava-se um paredão de jogadores; escolhiam-se dois capitães que chutavam, um por vez, em direção ao paredão. Quem fosse acertado se dirigia para o lado esquerdo ou direito. Às vezes o capitão tentava acertar o craque da turma. Geralmente errava. A bola batia no pior jogador. E o pior era o Miquéias.

Até aquele dia.

Miquéias era caladão (ou continua até hoje. Perdemos contato). Mas era amigo de todos, gentil, ótimo em empinar e laçar pipas, exímio nadador e bom de pesca também. Tinha uns riachinhos ali perto onde ele fisgava traíras e lambaris. Mas não jogava nada de futebol.

Feitas as escolhas, o capitão Vavá aparentemente se dera melhor nos chutes ao paredão. Formou uma boa defesa, tinha o Renato Chupa-Dedo no meio campo e o Rubão no ataque. Pelo nosso lado, o goleiro Givaldo pelo menos tinha uma noção.

Mas o time ainda precisava de alguém ali pela direita. E só restava o Miquéias no paredão. Olhamos, analisamos e concluímos que era ele ou nada. Jogar desfalcado era pior. Miquéias era ruim de bola mesmo. O pior lateral-direito da rua.

Com a bola rolando, a nossa desvantagem era óbvia. O time do Vavá mandava e dominava. Logo tomamos o primeiro gol, depois o segundo, depois o terceiro.

Antigamente, os políticos eram mais próximos dos bairros. Quando estava três a zero para o time do Vavá, um vereador prometeu pagar tubaína caso conseguíssemos pelo menos empatar.

Perdendo de três a zero, tentávamos a todo custo empatar aquela peleja.

Então foi que tudo aconteceu. Parado ali na lateral-direita, Miquéias não rendia nada, ele próprio percebera que foi pelo seu lado que tomamos aqueles três gols. Estava chateado. Ainda mais porque seu primo Guto estava ali perto do gol adversário, “zoando” com ele. Tirava sarro, ria e bradava aos quatro ventos que tinha um primo ruim, mas ruim mesmo de bola. Guto estreava uma camisa nova. Toda branca.

Ainda restavam uns dez minutos de jogo quando caiu uma rápida chuva de verão. Lama, lodo, areia e terra, tudo se misturava.

Aí a nossa sorte começou a mudar. Miquéias recebeu uma bola, mirou e mandou de direita. Um golaço, no ângulo. Ninguém acreditou.

Dois minutos depois, a bola chega de novo pra ele. Replay do primeiro gol. Só que agora de perna esquerda. Chute certo. No canto superior esquerdo do goleiro Vitinho.

Restavam alguns segundos para a partida acabar. Novamente a bola cai ali pela direita. Miquéias correndo, pedindo que lançassem. Estava empolgado entrando pela meia-direita.

Lembram-se daquele lance do quarto gol do Brasil na Copa de 70? Pelé rolando pra Carlos Alberto dar aquele chute de primeira. Pois Formiga fez o mesmo. Miquéias vinha na velocidade, Formiga olhou e colocou com carinho, com jeitinho. Miquéias mirou de novo, nem piscou, mandou para o gol. Put´z! Um golaço. No ângulo esquerdo, de novo. O goleiro parado, a bola descendo pela rede, a torcida muda, o primo Guto também, lógico.

Fim de jogo. 3 x 3. Todos para o Bar do Lúcio beber tubaína e baré-cola. Miquéias é abraçado pelos amigos. Desvencilha-se da turma e responde aos que elogiavam tantos chutes certeiros: ‘não acertei nenhum, não’, explicou com seu sotaque nortista.

Ele queria mesmo era acertar uma bolada no primo Guto que estava provocando ele, perto da trave. “Na próxima ele vai ver só!”, disse, virando de uma vez um copo de tubaína gelada!

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 * André Caldas é editor do Jornal Fatos de Itanhaém e contador de histórias. Autor do livros Itanhaém Histórica e Crônicas de um Itanhaense.

domingo, 2 de setembro de 2012

Já nas bancas e livrarias

Livro traz uma coletânea de crônicas assinadas por André Caldas e inspiradas em Itanhaém, a segunda cidade mais antiga do Brasil (481 anos).
O livro pode ser adquirido em todas as bancas do município. Tem 112 páginas e custa R$ 12,90.

sábado, 4 de agosto de 2012

Nossa História Nossa Gente


Elza Cobra de Moraes conheceu Itanhaém no final dos anos 60, a veraneio, com o esposo Wilson de Moraes, que era militar. Gostaram muito da cidade litorânea. Mudaram-se para Itanhaém em 1970, indo residir em uma casa na esquina da avenida Condessa de Vimieiros com a rua Leopoldino Araújo.

Elza nasceu na Capital, em 1920, na Rua Bonita, no bairro da Liberdade. Estudou em escola de freiras, o tradicional Colégio São José, na Rua da Glória, com educação francesa, e entrou para o magistério. Lecionou por quase toda a vida, formando homens e mulheres de bem, verdadeiros cidadãos e cidadãs.

Ainda na escola, conheceu o futuro esposo, Wilson. O casal teve três filhas.

Nas férias que passavam em Santos, ela, o marido e as filhas um dia resolveram conhecer a cidade praiana de que todos falavam, a cidade do Convento, das lindas praias.

Quando chegou a Itanhaém, Dona Elza se maravilhou com as belezas naturais, o clima bucólico, a tranquilidade e o som das ondas se chocando contra os rochedos, um conjunto harmônico que encantava e continua encantando os visitantes.

Depois de aposentada no magistério, Dona Elza descobriu a arte em Itanhaém. É poeta com livro publicado, membro da Academia Itanhaense de Letras e autora de lindos quadros onde retrata o cotidiano e as paisagens da cidade, principalmente as praias.

Ainda em São Paulo, antes de se mudar para Itanhaém, Dona Elza teve seu primeiro contato com o radioamadorismo, radioescuta e radiotelegrafismo. Gostou tanto que adotou a atividade como hobby e se tornou uma das radioamadoras mais conhecidas do Brasil.

Essa prática ela mantém ainda hoje, aos 92 anos, em sua casa, no Centro de Itanhaém, onde mantém um radioamador e um telégrafo, liderando rodadas de conversas com outros radioamadores do país e do mundo todo.

Entre as principais lembranças da atividade, ela se recorda que na Estação Ferroviária de Itanhaém havia um telégrafo antigo, grande, que atraía a atenção dos meninos e que serviu durante muitas décadas como o principal canal de comunicação da cidade com outras localidades, antes da chegada do telefone.

Dona Elza se recorda também de episódios marcantes no radioamadorismo, como campeonatos e concursos, ações de salvamentos a pilotos e capitães perdidos em alto-mar e outros momentos de prestação de serviços em que o radioamador foi vital para garantir a sobrevivência de muitas pessoas, em catástrofes e acidentes. Quando a comunicação mais comum falha, no caso os telefones e celulares, a humanidade sabe que pode contar com o radioamador e com o telegrafista.

Um dos maiores encontros de radioamadores do país foi realizado em Itanhaém em 2011. Dona Elza foi procurada por radioamadores e telegrafistas de vários Estados, que queriam conhecer a mulher com quem eles conversam frequentemente e que é respeitada e querida neste segmento.

Hoje nosso Município tem a honra de ter como uma de suas cidadãs uma pessoa de gestos tão nobres e motivo de tamanha admiração no radioamadorismo, que dignifica esta atividade que, mesmo sendo um hobby, é das mais importantes para a vida social da humanidade.
(por André Caldas)

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Itanhaém 480 Anos



Participe da edição comemorativa "ITANHAÉM 480 ANOS"

O município de Itanhaém comemora 480 anos no próximo mês de abril. Para marcar a data, o jornal Fatos está produzindo um caderno especial sobre a história da cidade no século 20, a partir de 1901.

As matérias terão a colaboração de famílias tradicionais, que já podem agendar entrevistas através do telefone 3426-8589 ou do e-mail jornalfatos@uol.com.br.

A população também pode encaminhar fotos e imagens deste período, sempre com a devida identificaçãos dos personagens da foto. No caso das fotos em papel, podem entrar em contato com o jornal que a equipe do Fatos faz o escaneamento e a devolução da foto ao portador.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Autor: Eduardo Bueno

Um povo que não conhece a própria história está fadado a repeti-la
E, é o que se diz, o brasileiro não tem memória. Embora chavões, essas sentenças são, para o jornalista Eduardo Bueno, verdades que se cruzam de modo comprometedor para o Brasil. “Lula se anunciando como pai do povo no horário eleitoral é uma repetição de Getúlio Vargas”, diz. “O que revela que o Brasil ainda é um país com viés paternalista, onde as pessoas acham que a solução tem de vir dos outros, que a sua responsabilidade é quase nenhuma.” Autor de numerosos e bem vendidos livros de história, Bueno está sempre de olho no país. Um olhar que, para alguns especialistas, carece de formação acadêmica.
Ainda que não seja unanimidade entre historiadores, com cerca de 600.000 exemplares comercializados, Bueno é um fenômeno editorial.Confira um rápido bate-papo com o autor:


Por que livro de história vende tanto no Brasil?
 O Brasil é um país espantoso, que deixa a gente inseguro quanto ao futuro. Agora, um pouco menos, por causa da aparente estabilidade da era Lula, que não se revelou o comedor de criancinhas que todos temiam. Mas acho que existe de fato uma curiosidade sobre o futuro do Brasil e isso desperta também interesse pelo seu passado. É aquela coisa de “Quem somos, de onde viemos, para onde vamos”. E tem também uma questão de identidade. As pessoas me perguntam muito, nas palestras que eu dou, se determinados hábitos que temos são mesmo legado português. É uma crise de identidade, e a introjeção de uma mentalidade colonizada. Mas, olha, cara, não se vendia assim antes de mim. Falo isso independentemente de ego.


Se esse terreno ainda era incerto quando você começou, por que decidiu se arriscar nele?
Primeiro, porque história era um assunto de que eu gostava. Segundo, porque, pela minha experiência no mercado editorial, sentia que havia uma demanda reprimida por livros de história no país. Eu percebia essa demanda desde os anos 1980, quando fiz uma coleção na editora LP&M sobre os grandes viajantes do período colonial – o Américo Vespúcio, o Cristóvão Colombo e o Pero Vaz de Caminha – e aquilo explodiu, vendeu muito. Então, eu ampliei a coleção e incluí Marco Pólo, que entrou para a lista de mais vendidos de VEJA.

Foi aí que você resolveu escrever os próprios livros de história?
Teve mais uma coisa que contribuiu para a minha decisão. Três que caras confirmaram o que eu pensava: o Fernando Moraes, com o best-seller Olga, meu amigo Jorge Caldeira, o Cafu, que vendeu 180.000 exemplares de Mauá, e o Ruy Castro, que não faz exatamente história, mas livros com substrato ligado à área, como biografias de grandes brasileiros. Eu olhava tudo isso e me dizia, “É óbvio que as pessoas querem uma história do Brasil com mais sangue, com mais vida, com personagem de carne e osso, com mais ação e aventura, e com um texto jornalístico, não acadêmico”. E vi que havia um longo período do Brasil a ser explorado: o colonial. Porque esses três caras que eu citei trabalhavam com o passado recente, com o século XX – mesmo o do Barão de Mauá, porque ele, ao defender a industrialização do Brasil no século XIX, foi uma espécie de arauto do que viria. Resolvi ir fundo e pegar aquilo que estava aprisionado na sala de aula. Percebi que um livro com viés jornalístico iria atingir um público que estava querendo isso.