sexta-feira, 18 de março de 2011

Gente da nossa terra

D. Dirce, atrás do neto Pedro, recebe a homenagem do vereador Rossmann


O mar, a pesca e a família são as paixões da pescadora aposentada Dirce dos Santos Carneiro.
Uma personagem valente, guerreira, que soube fazer das dificuldades da vida o alicerce para a formação de uma família grande, numerosa em pessoas e em amor mútuo.
D. Dirce teve o privilégio de nascer numa Itanhaém que já não existe mais, uma Vila, um recanto balneário pacato, de pequena população mas de uma gente amiga, onde todos se conheciam e se admiravam.
Seus pais moravam no Morro do Sapucaitava, onde hoje existe o Iate Clube. Ali, um recanto de pescadores e barqueiros. Homens e mulheres que tiravam o seu sustento do rio e do mar.
João Pires dos Santos, o popular Bigode e sua esposa, Benedita Maria dos Passos, se tornaram um dos primeiros a habitar aquela área. Com eles conviviam Pernambuco, Ricardo, Anatólio, Seu Henrique, D. Francisca (mãe do saudoso Batata, eterno salva-vidas) e tantos outros caiçaras que foram os primeiros a desbravarem aquela região. Conviviam com famílias de sobrenome destacado, como os Reale e a família Foz, dona de uma grande baleeira. O velho Miguel Reale só comprava peixes do Bigode.
A vida era dura, rústica. Mas a vista da Boca da Barra compensava, aquele visual deslumbrante que encanta a todos.
A casa de sapé, mais tarde de tábua, viu nascer os filhos Milton, Rubens, Toninho e Dirce, no início dos anos 40, que passou sua infância correndo naquelas praias, nadando, ajudando os pais na pesca e na travessia da barca que tinha o nome de Ubatinga e que transportava as pessoas de um lado para outro. Estudou na recém criada escola Benedito Calixto. Foi da primeira turma, que tinha como diretora a professora Eugênia Pitta Veloso.
Nos fins de semana, o movimento crescia, principalmente de turistas e jogadores de futebol, que praticavam seu esporte na área onde hoje existe a Telefônica. Era um campo de areia branca. Findadas as partidas, todos os atletas queriam ir para o outro lado do rio, se refrescar e comer peixe frito.
Exímia nadadora, encantava a todos contornando a barra e chegando à Prainha, onde, anos mais tarde, se tornaria a líder dos pescadores artesanais. Representava a sua comunidade em campeonatos de pirogas (canoas com remo). Era campeã em todas as provas e categorias. Um orgulho da sua gente.
O tempo passou e as responsabilidades foram chegando. Passou a trabalhar duro para ajudar os pais. O fruto de seu trabalho era vendido aos restaurantes locais. Não só peixes, mas os melhores mariscos só a Dirce conseguia encontrar. Em se tratando de robalões, siris e mariscos, era a fornecedora preferida dos cozinheiros das famílias tradicionais da Cidade.
O pai já não tinha o mesmo entusiasmo. Entristecido pela morte do filho amado, Rubens, então cabo da Polícia Militar, vítima de um choque térmico, num episódio onde a fatalidade e a banalidade se misturaram. Bigode nunca mais seria o mesmo. Vendeu mais tarde a sua área de terra no morro para a família de Francisco Maldonado Júnior. Bigode, o famoso e popular barqueiro, faleceu em 1976.
Dali em diante, Dirce sabia que era por sua própria conta. Juntou o suficiente para dar entrada na sua primeira canoa em 1977 e decidiu se instalar na Prainha.
Eram apenas seis canoas naquele trecho da Praia dos Pescadores. E não tinha carretinhas para levar a canoa ao mar. Era na estiva, tábuas onde se passava sebo de boi e por ali o barco deslizava até encontrar as primeiras ondas. Comandava a sua embarcação com maestria, segurança. Sabia onde encontrar os maiores cardumes.
Quando retornava com a canoa, numa época de fartura, os filhos pequenos auxiliavam na separação e limpeza dos pescados, pois os clientes já esperavam em sua barraquinha.
Liderança natural, querida e amada por todos os pescadores, foi nomeada pela Federação de Pesca de Santos para comandar aquela área, transmitindo as regras e código de conduta, acima de tudo, orientando quanto à segurança em alto-mar.
Graças à sua determinação, ali era proibida a venda de peixes congelados, que não fossem frescos, pescados naquela mesma madrugada.
Naquela época, já havia adquirido o lote que serve até hoje como seu aconchegante lar. Foi uma das primeiras moradoras da Rua Manoel Francisco Lisboa. Tinha apenas dois vizinhos na rua.
O bairro ainda se chamava Rio do Poço, ou Sessenta. Depois passou a ser conhecido como Belas Artes.
Não vivia apenas do mar. Carismática e popular na Cidade inteira, trabalhou também no boliche do Sr. Harry Forssell, no Centro. E aos sábados, na cadeia pública, durante seis anos foi a responsável pela revista das mulheres que iam visitar os familiares reclusos.
Depois de 30 anos de trabalho e dedicação à família, um problema de visão, causado pelo glaucoma, tirou-lhe o prazer de ver o mar, as praias e as ondas.
Nossa homenageada, no entanto, jamais se deixou abater. Domingo após domingo, quando reúne os filhos, beija um por um, a quem chama pelo nome. Mistérios do instinto maternal.
Teve dez filhos (um deles, Eduardinho, faleceu com apenas 18 meses, vitimado por uma pneumonia mal diagnosticada). Seus filhos lhe deram 40 netos, 24 bisnetos e 1 tataraneto.
Seus filhos são Pantera, Gordo, Sandra, Tiquinho, Buda, Afonso, Alex, Heidi e Careca.
D. Dirce dos Santos Carneiro é Gente da Nossa Terra.
Foi homenageada pelo vereador João Rossmann neste dia 18, em evento da Câmara Municipal, por ocasião do Dia Internacional da Mulher.

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