sábado, 10 de setembro de 2011

Crônicas itanhaenses

Rios e praias. Nenhum bicho


André Caldas

Dizem que a grande vantagem de quem mora no litoral é a proximidade com a natureza. Com as praias, rios e matas. Médicos garantem que faz bem para a saúde, porque o ar é mais puro e o ritmo de vida é mais lento. Acho que parou por aí, porque, dependendo do ponto de vista, residir nas cidades aqui no Litoral Sul é mais adequado apenas para quem já está de olho na aposentadoria. Para quem já começa a tirar o pé do acelerador.
A dita proximidade com a natureza está se tornando uma propaganda enganosa. Até quem mora nas áreas mais afastadas reclama que só vê mesmo, quando muito, passarinhos. E dos tipos mais comuns, os sabiás e bem-te-vis. Não sobrou nada dos animais silvestres que invadiam as chácaras e sítios. Quando pequeno, no Gaivota, me lembro muito bem do contato diário com toda sorte de bichos do mato, tatus, saguis e teiús. Espalhávamos pedaços de goiaba, banana, couve e cenoura em vários cantos da chácara. E do alto do telhado a garotada curtia a fauna passear pelo quintal.
Só que depois a gente ouvia a bronca dos velhos avós, porque, eles diziam, para cada bicho desses que vêm aqui, vem uma onça atrás. “Avisem seus tios quando forem fazer isso, porque eles têm espingarda e só eles podem afastar os gatos-do-mato”, ensinava o velho Monteiro.
O grande mal dos tempos modernos é a ganância exasperada por riquezas, garantias e os ditos direitos. Não sei se é direito de alguém acabar com a natureza, erradicar bichos, pássaros e plantas nativas em detrimento do bem estar de um pequeno grupo. Dá, na minha opinião, para compartilhar e viver bem, de forma harmoniosa, homens e bichos.
Talvez seja porque a cidade cresce de modo estranho, disforme. De uns tempos para cá, virou mania o sujeito comprar um terreno lá no fim do mundo, erguer uma casa num lote onde só se chega por um caminho no mato. Aí passa a exigir que as autoridades abram a rua, derrubem árvores,  leve água, luz, ônibus na porta. Acho que se o cara optou por comprar um terreno num local tão distante e tão próximo da natureza, devia mais é rejeitar qualquer coisa que rime com progresso.
Porque estes e seus filhos, geralmente, são os primeiros a apoiar as denúncias de que a Mata Atlântica, aqui na região, está morrendo. Ora, e qual foi o papel deles?
Outra coisa é o costume de quem tem casa nos chamados bairros ricos da cidade de erradicar jardins para cimentar tudo. Economiza com o jardineiro, poda, faxineira, alegam eles. A maioria desses proprietários é paulistana que só vem à cidade no fim do ano. Deveria ter uma lei que obrigasse esses quatrocentões paulistanos a manterem com grama a calçada de suas casas no litoral.
Quando morei no Ieda na virada dos anos 70 e 80, não queríamos que a rua tivesse calçamento. Nem que mais ruas fossem abertas nas picadas no mato, que eram os caminhos que seguíamos para conferir o resultado das nossas arapucas para atrair coleirinhas e tiês-fogo, que soltávamos logo em seguida, apenas pelo prazer de segurar com as mãos tão belas aves. Por esses caminhos, alcançávamos o Rio do Poço, onde já nos aguardavam puçás com um ou dois quilos de pitús.
Não sei onde vai parar tudo isso. Nem como vai acabar. De natureza, mesmo, só as praias. Bicho, nenhum.

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