Lembrando Camille e Jesus
Na grande enchente de 1981, que alagou a praça do Belas Artes, o exemplo notável de dois pré-candidatos a vereador
ANDRÉ CALDAS
Quem tem mais de 40 anos lembra-se da grande enchente que inundou o Belas Artes em 1981. Foi no verão de 81. A praça principal do bairro, a Ângelo Guerra, virou um piscinão.
Estudava ali perto quando a chuva começou. Na escola Belas Artes, no prédio que hoje abriga a Casa da Música. Choveu por três dias seguidos. Maré cheia e chuva torrencial dá nisso que vimos há uma semana: o rio “devolve” a água.
Na escola, acabou a luz. Fomos dispensados pela diretora D. Mercedes. Correndo e se divertindo na chuva, fomos para a praça.
Bem no meio da Praça Ângelo Guerra tinha uma escola infantil. Comportava umas 60 crianças. Acho que era a escola Leonor, que depois se transferiu para o Mosteiro. A praça foi reformada em 1997, num projeto patrocinado pela família Peralta (do antigo supermercado).
No meio da tarde, a enchente se tornou realidade. A água subiu mais de um metro. Invadiu a escolinha; levou pânico às professoras e alunos.
Do outro lado da rua, avistamos as crianças chorando, as professoras acenando e os comerciantes se preparando para começar o resgate dos meninos e meninas da escola infantil. A água subia.
Aos poucos, as crianças foram levadas nos ombros dos adultos para os cantos mais seguros.
Entre os adultos, duas pessoas bem conhecidas no Belas Artes: Camille Guerra e Domingos de Jesus.
Para acalmar as crianças, faziam brincadeiras, contavam piadas. “O Camille é quem precisa de resgate”, ria o brincalhão Jesus, certamente zombando da baixa estatura do pequenino mas valente Camille.
Deu tudo certo. Todos resgatados. Todos salvos. Camille e Jesus, exaustos, foram abraçados pelos pais.
Na ocasião, eles militavam em lados opostos da política. Camille era do PMDB, oposição ao prefeito Miguelzinho, que tinha o apoio de Jesus.
Camille e Jesus eram pré-candidatos a vereador. Mais tarde, seriam mesmo eleitos e se tornariam representantes do nosso bairro.
Relembrei desta história agora por causa da inundação que a região do Belas Artes e Cibratel enfrentou há uma semana. A maré alta impediu a vazão completa do rio e muita gente perdeu móveis, roupas e comida.
E relembrei do episódio também por causa da internet onde, semana passada, alguns pré-candidatos a vereador, de oposição ou não, sei lá, fizeram troça da desgraça alheia. Escreveram impropérios numa hora imprópria. Curtiram e se abraçaram porque a inundação “tira votos do Governo”, vejam só.
Camille e Jesus estão no céu. Foram bons políticos no meu bairro.
* André Caldas é editor do Fatos, do jornal da Associação Comercial e outros mais. Passou a infância no Ieda (bairro da região do Belas Artes, em Itanhaém)
ANDRÉ CALDAS
Quem tem mais de 40 anos lembra-se da grande enchente que inundou o Belas Artes em 1981. Foi no verão de 81. A praça principal do bairro, a Ângelo Guerra, virou um piscinão.
Estudava ali perto quando a chuva começou. Na escola Belas Artes, no prédio que hoje abriga a Casa da Música. Choveu por três dias seguidos. Maré cheia e chuva torrencial dá nisso que vimos há uma semana: o rio “devolve” a água.
Na escola, acabou a luz. Fomos dispensados pela diretora D. Mercedes. Correndo e se divertindo na chuva, fomos para a praça.
Bem no meio da Praça Ângelo Guerra tinha uma escola infantil. Comportava umas 60 crianças. Acho que era a escola Leonor, que depois se transferiu para o Mosteiro. A praça foi reformada em 1997, num projeto patrocinado pela família Peralta (do antigo supermercado).
No meio da tarde, a enchente se tornou realidade. A água subiu mais de um metro. Invadiu a escolinha; levou pânico às professoras e alunos.
Do outro lado da rua, avistamos as crianças chorando, as professoras acenando e os comerciantes se preparando para começar o resgate dos meninos e meninas da escola infantil. A água subia.
Aos poucos, as crianças foram levadas nos ombros dos adultos para os cantos mais seguros.
Entre os adultos, duas pessoas bem conhecidas no Belas Artes: Camille Guerra e Domingos de Jesus.
Para acalmar as crianças, faziam brincadeiras, contavam piadas. “O Camille é quem precisa de resgate”, ria o brincalhão Jesus, certamente zombando da baixa estatura do pequenino mas valente Camille.
Deu tudo certo. Todos resgatados. Todos salvos. Camille e Jesus, exaustos, foram abraçados pelos pais.
Na ocasião, eles militavam em lados opostos da política. Camille era do PMDB, oposição ao prefeito Miguelzinho, que tinha o apoio de Jesus.
Camille e Jesus eram pré-candidatos a vereador. Mais tarde, seriam mesmo eleitos e se tornariam representantes do nosso bairro.
Relembrei desta história agora por causa da inundação que a região do Belas Artes e Cibratel enfrentou há uma semana. A maré alta impediu a vazão completa do rio e muita gente perdeu móveis, roupas e comida.
E relembrei do episódio também por causa da internet onde, semana passada, alguns pré-candidatos a vereador, de oposição ou não, sei lá, fizeram troça da desgraça alheia. Escreveram impropérios numa hora imprópria. Curtiram e se abraçaram porque a inundação “tira votos do Governo”, vejam só.
Camille e Jesus estão no céu. Foram bons políticos no meu bairro.
* André Caldas é editor do Fatos, do jornal da Associação Comercial e outros mais. Passou a infância no Ieda (bairro da região do Belas Artes, em Itanhaém)
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