No jornal Fatos de outubro de 2006, um conto do saudoso memorialista JOSÉ ROSENDO
Os heróicos “Guarda-Fios”
“Do rio que desperta envolto em brumas, surge a canção dos remos, que buscam o segredo das espumas” (Paulo Bomfim)
Fundado em 11 de maio de 1852, pelo engenheiro alemão Guilherme Schuch, que recebeu do Imperador D. Pedro II o título de Barão de Capanema, o Telégrafo Nacional foi uma epopéia que colocou o Brasil entre as nações mais desenvolvidas no campo das comunicações. Iniciado no Rio de Janeiro, após alguns anos o telégrafo cruzava todo o território nacional. As linhas telegráficas eram sustentadas por postes de ferro revestidos e blindados por uma camada de piche (mistura de terebintina com alcatrão), o que os tornava imunes à umidade e à corrosão por muitos e muitos anos.
Esses primeiros postes especiais eram fabricados e importados da Inglaterra, pois o Brasil não dispunha ainda da tecnologia para a produção dos mesmos. Até hoje, passados mais de 150 anos, é possível encontrar, na Serra da Juréia, Itatins e praia de Una, restos desses postes, com inscrições em inglês em seu pedestal. O Telégrafo Nacional tornou-se internacional ao chegar ao extremo sul do país, quando houve a integração com o Uruguai, Paraguai e Argentina. A linha sul que chegava àqueles países acompanhava o litoral do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná até a capital paulista, de onde se expandia para o restante dos estados do Brasil.
A implantação das linhas telegráficas constitui-se numa tarefa árdua e arriscada, pois os pioneiros atravessavam trechos de mata virgem em locais de difícil acesso, com os perigos daí decorrentes. Para a manutenção e vigilância diuturna do complexo de postes e fios foi criado o cargo de “guarda-fios”, que ficaram lendários no trabalho que realizaram.
A empresa mantenedora contratava trabalhadores para cuidar de trechos pré-determinados, de preferência pessoas conhecedoras da região e moradores das proximidades, que mantinham limpas as picadas por onde passavam as linhas telegráficas. Era missão de grande responsabilidade, pois a ruptura de um dos fios interrompia a comunicação com várias cidades. Cada “guarda-fios” era responsável pela manutenção de 20 quilômetros de linhas, aproximadamente, a cuja tarefa se dedicavam integralmente. Tive o privilégio de conhecer três desses heróicos “guarda-fios”.
Gentil do Prado, encarregado do trecho compreendido entre Iguape e a magnífica Serra da Juréia, tendo como término o soberbo Rio Verde. Morava em Iguape, mas, dadas as dificuldades enfrentadas na Serra da Juréia, resolveu mudar-se para o Rio Verde onde, segundo me contou, passou os melhores anos de sua vida.
Junto com sua virtuosa esposa e filhos menores cultivou a terra que lhe deu bons frutos. O peixe e a caça eram abundantes. Aproveitava o trabalho de vigilância das linhas telegráficas para levar até Iguape, para vender produtos de sua lavoura e peixes defumados. Quando se aposentou veio morar em Itanhaém, onde os filhos terminaram os estudos. Bom violeiro e cantador, participava em Iguape, da Folia do Divino, e da festa dos “Santos Reis”. Em Itanhaém, formou um grupo de “reisado”, que encantava as noites de Epifânia. Deixou muita saudade.
Ranulfo Oliva de Lacerda, que foi vereador em Itanhaém na 2ª legislatura (1952/1955), de tradicional família peruibense, era o “guarda-fios”, no trecho que começava na Ponta do Grajauna, junto ao Rio Verde, até Peruíbe. Era um percurso diversificado, com trechos planos e “limpos”, como a Praia de Uma, e as dificuldades encontradas ao longo do imponente maciço da cordilheira do Itatins.
Benedito Lacerda Filho, mais conhecido como “Bibi Lacerda”, irmão de Ranulfo, acima citado, era o “guarda-fios” do trecho Peruíbe/Itanhaém, considerada uma área de fácil fiscalização, por não possuir acidentes geográficos relevantes. “Bibi” Lacerda fixou residência em Itanhaém e aqui criou seus filhos.
Pescador e caçador inveterado, granjeou grande prestígio na cidade, pois além de trabalhar nos Correios e Telégrafos, era excelente eletricista e encanador. Na pesca era onde mais se sobressaia. O mar, para ele, não tinha segredos. Sabia a hora certa da reponta da maré e ia pescar, no momento mais propício, de tarrafa, picaré, linhada ou arrastão, e não voltava de mãos vazias. Ao se aposentar, voltou para Peruíbe, onde viveu o resto de seus dias. Dizem vários de seus amigos que, com mais de noventa anos de idade, ainda madrugava, no inverno, para a pesca da tainha!
A história do Telégrafo Nacional, que marcou uma época importantíssima para o nosso país, ainda não foi devidamente relatada. Se isso for feito, quantos “heróicos guarda-fios” surgirão de um glorioso passado, como os três que conheci?

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