terça-feira, 12 de julho de 2011

HISTÓRIAS DE ITANHAÉM


Artigo do memorialista José Rosendo, publicada no jornal Fatos em 13 de julho de 2006

Revolução Constitucionalista: uma Epopéia

“Surjamos destas pedras que hoje cobrem chãos avoengos, tabas ancestrais” (Paulo Bomfim) 

Para o paulista, ufanoso da pujança do seu Estado, que tem como paradigma o vigor e a temperança com que conduz, “para frente e para o alto”, com arrojo e determinação, o destino de sua terra, o mês de Julho é sempre tempo de reflexão sobre o papel desempenhado por seus antepassados na defesa da Honra e do Direito! A Revolução Constitucionalista de 1932 foi uma epopéia que determinou o rumo da nacionalidade. De São Paulo ecoou o brado de inconformismo, em relação aos desmandos perpetrados por um governo ilegítimo e autoritário.
Os paulistas, cantados por Guilherme de Almeida:- “os que houveram as terras e as gentes por sua força e fé, na lei puzeram a sua força...”, foram à luta e, embora derrotados (por forças superiores e traidores pusilânimes), escreveram uma das mais belas páginas de heroísmo de que se tem notícia!
Tinha apenas sete anos de idade. Meus pais eram caseiros da mansão de veraneio do Dr. Eloy Gomes (um dos pioneiros da aviação brasileira), localizada na esquina da Av. Condessa de Vimieiro com a rua Dr. Cesário Bastos (a “rua da estação”). Todos os domingos meu pai me levava à estação para assistir a chegada do trem e para comprar “A Tribuna”. Meu pai lia o jornal junto com minha mãe e fazia comentários sobre as notícias mais recentes e, preocupado, dizia que “alguma coisa” estava para acontecer.
Na escola (Escolas Reunidas de Itanhaen), minha mestra, professora Olga Lopes de Mendonça, considerada uma das maiores educadoras de várias gerações de itanhaenses, tentava explicar o significado de uma “revolução” que estava acontecendo. Em linguagem simples, acessível à nossa ingenuidade, dizia que cada um tinha o dever de defender sua casa, sua família e a terra onde nasceu. Convidou-nos para irmos à estação, em determinado dia, receber os soldados que viriam defender nossa cidade contra possíveis invasores!
O dia, ansiosamente esperado, chegou! As famílias dirigiram-se à estação para recepcionar o “trem blindado” que traria os soldados. Ao entardecer surgiu o trem no horizonte, apitando festivamente, tendo à frente da locomotiva as bandeiras brasileira e paulista. Os soldados, das janelas do trem, acenavam para o povo da Vila!
Nesse instante, minha mente infantil captou um momento de infinita beleza, jamais esquecido: os soldados descendo do trem com seus uniformes impecáveis, de alamares e botões dourados; capacetes de aço e carabinas nos ombros; mochilas às costas e baionetas na cintura; botas reluzentes se perfilando ao longo do páteo da estação, sob as ordens dos oficiais. Deslumbrados, acompanhamos a marcha da tropa até o Gabinete de Leitura, onde foram alojados. Era Julho de 1932, quando São Paulo despertava a consciência nacional rumo à soberania igualitária!
Hoje, conhecedor da grandiosidade do Movimento Constitucionalista de São Paulo, tenho consciência de que, na minha infância, participei de um momento mágico de cidadania e brasilidade!
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