quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Lembranças da infância, no Ieda (crônica do André Caldas)

Boa pontaria (ou não, depende)

Ele era o pior lateral-direito que tinha no time da nossa rua

As peladas de fim de semana fazem parte dos costumes de qualquer bairro que tenha áreas livres. E tinha áreas de sobra lá no Ieda, nos idos de 77 a 80. Tinha uma praça, que continua do mesmo jeito até hoje, passados mais de 30 anos, que era o ponto de encontro da comunidade nos sábados à tarde e domingos de manhã (quando se conseguia fugir da escola dominical).

Na periferia, em qualquer cidade, os campinhos - de terra, grama ou mesmo nas ruas pavimentadas – tornam-se ponto de encontro preferido dos finais de tarde. É ali onde toda mãe sabe que vai encontrar o filho. Mesmo que o rebento não goste de futebol. Porque aquele campinho parecia um playground. Como o espaço era extenso, alguns garotos jogavam taco, outros jogavam triângulo com bolinhas de gude, empinavam pipas e outros (o meninos acima de 12 anos) sentavam nos troncos de eucaliptos apenas para flertar com as meninas. Mas só olhavam. Era só “pressão”, um termo popular na época para designar os metidos a besta.  

Também na periferia, a população infantil é grande. Por isso o campinho parecia um formigueiro. E por isso também era imensa a quantidade de amigos que todo mundo tinha.

A turminha do futebol era uma grande concentração de moleques. Passava dos trinta. Sempre ficava um time do lado de fora, esperando um deles perder para dar a vez a outro.

E para montar os times era um curioso critério: formava-se um paredão de jogadores; escolhiam-se dois capitães que chutavam, um por vez, em direção ao paredão. Quem fosse acertado se dirigia para o lado esquerdo ou direito. Às vezes o capitão tentava acertar o craque da turma. Geralmente errava. A bola batia no pior jogador. E o pior era o Miquéias.

Até aquele dia.

Miquéias era caladão (ou continua até hoje. Perdemos contato). Mas era amigo de todos, gentil, ótimo em empinar e laçar pipas, exímio nadador e bom de pesca também. Tinha uns riachinhos ali perto onde ele fisgava traíras e lambaris. Mas não jogava nada de futebol.

Feitas as escolhas, o capitão Vavá aparentemente se dera melhor nos chutes ao paredão. Formou uma boa defesa, tinha o Renato Chupa-Dedo no meio campo e o Rubão no ataque. Pelo nosso lado, o goleiro Givaldo pelo menos tinha uma noção.

Mas o time ainda precisava de alguém ali pela direita. E só restava o Miquéias no paredão. Olhamos, analisamos e concluímos que era ele ou nada. Jogar desfalcado era pior. Miquéias era ruim de bola mesmo. O pior lateral-direito da rua.

Com a bola rolando, a nossa desvantagem era óbvia. O time do Vavá mandava e dominava. Logo tomamos o primeiro gol, depois o segundo, depois o terceiro.

Antigamente, os políticos eram mais próximos dos bairros. Quando estava três a zero para o time do Vavá, um vereador prometeu pagar tubaína caso conseguíssemos pelo menos empatar.

Perdendo de três a zero, tentávamos a todo custo empatar aquela peleja.

Então foi que tudo aconteceu. Parado ali na lateral-direita, Miquéias não rendia nada, ele próprio percebera que foi pelo seu lado que tomamos aqueles três gols. Estava chateado. Ainda mais porque seu primo Guto estava ali perto do gol adversário, “zoando” com ele. Tirava sarro, ria e bradava aos quatro ventos que tinha um primo ruim, mas ruim mesmo de bola. Guto estreava uma camisa nova. Toda branca.

Ainda restavam uns dez minutos de jogo quando caiu uma rápida chuva de verão. Lama, lodo, areia e terra, tudo se misturava.

Aí a nossa sorte começou a mudar. Miquéias recebeu uma bola, mirou e mandou de direita. Um golaço, no ângulo. Ninguém acreditou.

Dois minutos depois, a bola chega de novo pra ele. Replay do primeiro gol. Só que agora de perna esquerda. Chute certo. No canto superior esquerdo do goleiro Vitinho.

Restavam alguns segundos para a partida acabar. Novamente a bola cai ali pela direita. Miquéias correndo, pedindo que lançassem. Estava empolgado entrando pela meia-direita.

Lembram-se daquele lance do quarto gol do Brasil na Copa de 70? Pelé rolando pra Carlos Alberto dar aquele chute de primeira. Pois Formiga fez o mesmo. Miquéias vinha na velocidade, Formiga olhou e colocou com carinho, com jeitinho. Miquéias mirou de novo, nem piscou, mandou para o gol. Put´z! Um golaço. No ângulo esquerdo, de novo. O goleiro parado, a bola descendo pela rede, a torcida muda, o primo Guto também, lógico.

Fim de jogo. 3 x 3. Todos para o Bar do Lúcio beber tubaína e baré-cola. Miquéias é abraçado pelos amigos. Desvencilha-se da turma e responde aos que elogiavam tantos chutes certeiros: ‘não acertei nenhum, não’, explicou com seu sotaque nortista.

Ele queria mesmo era acertar uma bolada no primo Guto que estava provocando ele, perto da trave. “Na próxima ele vai ver só!”, disse, virando de uma vez um copo de tubaína gelada!

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 * André Caldas é editor do Jornal Fatos de Itanhaém e contador de histórias. Autor do livros Itanhaém Histórica e Crônicas de um Itanhaense.

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