Coisas
de dezembro
Porque
tem coisas que só acontecem com a gente nesta época
Da forma como anunciam os cartões natalinos, este é um período de reflexão, de olharmos mais para o interior de nós mesmos e procurarmos melhorar o mundo.
E vivermos
situações inusitadas também.
Porque
existem coisas que só acontecem mesmo em dezembro, quando somos tomados pela
descontração, relaxamos na disciplina, dormimos tarde e acordamos tarde também.
É o mês
onde participamos de tudo que é festa de confraternização. Na minha profissão,
recebo convites para três eventos ao mesmo tempo. Mas não temos estômago
suficiente pra tanta picanha, farofa e pão com vinagrete. Nem temos tantos
amigos ocultos assim.
Participamos
também das peladas de confraternização, que reúnem corintianos versus
santistas, amigos desse versus amigos daquele e assim por diante. Ocorre que
participei no último domingo de uma pelada na praia do São Fernando reunindo
solteiros versus casados. É tradição. Existe há mais de dez anos. As equipes
nunca mudaram muito. Mas desta vez o time dos casados cresceu, tal a quantidade
de amigos que se casaram de janeiro pra cá. Já desconfiava disso, porque passei
o ano recebendo convites de casamento.
Das coisas
de dezembro que mais gostamos destacam-se as festas familiares e a chegada dos
parentes. Esta semana conheci dois primos do interior que, juro, nem sabia da
existência.
Mas no fim
do ano tem coisa mais divertida do que as crianças correndo pela casa? Do
pequenino sobrinho perguntando se Papai Noel vai descer pela chaminé da lareira
ou surgir da churrasqueira dos fundos? Dos carteiros e coletores de lixo tão
gentis nesta época (claro, tem a caixinha, o vinho, o panetone)? Do corre-corre
esbaforido das nossas tias na cozinha, conferindo cada detalhe da ceia? E os
telefonemas, SMS, e-mails e dos cartões de Natal que muitos acham antiquados,
mas se desmancham todo quando o carteiro chega?
Bom, tem a
depressão de fim de ano. E neste quesito, amigo e amiga, não se preocupe. Um
pouco de tristeza e contrição ajuda a equilibrar nossas emoções. Ninguém é de
ferro. Claro, vamos nos lembrar dos amados que se foram, com tristeza, porque
não estarão mais conosco nesses momentos de grande alegria. Por ser a época
mais esperada do ano, para a maioria das pessoas, o período natalino traz um
misto de ansiedade e depressão. É uma época em que as emoções se alteram, para
cima ou para baixo, mexendo de fato com o humor de cada um de nós. Tem a
depressão pelas lembranças tristes e aquelas provocadas pela ansiedade. E isso
afeta mais as donas de casa, que não querem se equivocar em nenhum detalhe da
festa. A adrenalina sempre a mil por hora. Seja qual for o motivo o coração
bate acelerado, falta o ar e a barriga gela. Esses são alguns dos efeitos da
ansiedade que, em dosadas proporções, é até benéfica, afirmam os entendidos.
Só que, das
melhores coisas para se fazer neste final de ano, brindar com amigos não tem
preço. E sem pressa, nem celular tocando. E nossa turma tem preferência pelos
botecos dos bairros. Afinal, somos originários da periferia itanhaense,
freqüentadores de bares com mesa de sinuca, bêbados cochilando no balcão,
pôsteres da seleção de 82 na parede e tira-gostos de origem contestada (alguém
já comeu um ovo cor-de-rosa num botequim?). Vai daí que nesta época do ano
seguimos uma via sacra conhecida: bar do Luis (Loty), bar do Marquinhos (trevo
do Suarão), padaria do Armandinho (Savoy), padaria do Bedeu (Ivoty), bar do
Levi (Cesp), bar do Nei (Belas Artes) e bar do Russo (Jardim Regina) e outros
mais, sem esquecer o Porbem, no Centro, onde encontramos o melhor torresmo do
Brasil. Em cada boteco ganhamos uma folhinha, um calendário, abraços e por aí a
coisa vai.
Como
estamos no final do ano, reencontramos gente que há décadas desconhecíamos o
paradeiro. E em alguns casos, não reconhecemos de imediato, porque todo mundo
engorda, não tem jeito. A careca, a bochecha e a saliência abdominal escondem o
rapaz esbelto e atraente de vinte anos atrás.
Resumindo a
missa, fim de ano pra quem mora em Itanhaém exige também muita paciência com os
turistas. A turma que desce a serra ajuda na economia local, apesar dos
problemas que trazem a tiracolo. Mas é nossa obrigação recebê-los e orientá-los
porque estão sempre perdidos. Se bem que não tiro a razão do meu jardineiro,
que fulo da vida, deu uma orientação errada depois de quase ter sido atropelado
por um grupo de rapazes num carrão envenenado que parou ali na frente e pediu
informações sobre como chegar à Praia do Sonho. “Ih, tá longe. Pega a rodovia
lá na frente, vai em direção a Peruíbe, porque a Praia do Sonho fica depois da
Praia do Gaivota”.
Pega leve,
seu Ari!
Dezembro de 2007
(texto publicado no livro Crônicas de um Itanhaense, à venda nas bancas de Itanhaém)
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